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Um passeio no reinado dos ritmos

Postado em Textos

Tudo é coco

“Ó, menina bonita não dorme na cama
Dorme na limeira, no colo da rama
Meu xexéu de bananeira
Cajueiro abaixa a rama

Ó, menina bonita, formosa, brejeira
Que só sai de casa pra fazer a feira
Arrastando a saia, levanta poeira
Meu xexéu de bananeira
Cajueiro abaixa a rama”

O mulatinho franzino e risonho saltitava os olhos como um cabrito entre o ganzá e a zabumba. Os músicos, que manipulavam os instrumentos como extensões de seus braços, compunham o cenário de fundo de outra concorrida, ruidosa e mágica roda de coco puxada por Flora Mourão, acompanhada pelo parceiro de zoada, João Feitosa.

Aquela era na feira de Alagoa Grande. Mas poderia ser em Alagoinha, em Guarabira, em Bananeiras, no sítio, no barraco, na ladeira… Onde tivesse alguém disposto a ouvir e dançar com a melhor e mais animada coquista do brejo paraibano, lá ia ela, distribuindo arte e coletando o sustento da família. Ela e o azougue do filho, José Gomes, de nome herdado do pai, oleiro e silencioso cúmplice dos dotes artísticos da família.

“Hoje é a véspera, amanhã é o dia
Quem não dorme sou eu, Maria
Vou embora pra Ponta de Pedra
Saudade eu tenho da Bahia”

Com os olhos, o mulatinho Zé, de seis anos, memorizava o manejo da percussão.

Com os ouvidos, capturava as nuances das melodias embaladas pela puxadora.

Com a boca, entre dentes, mastigava e engolia as letras das músicas repetidas pelo coro da audiência.

Com a alma, fotografava a dança e o sorriso da mãe. Ambos lhe seguiriam por toda a vida, incorporados ao seu rústico e intuitivo aprendizado rítmico e melódico, repassado por ancestrais negros, indígenas e portugueses, através de anônimos músicos dos brejos, sertões e litorais nordestinos .

O menino não sabia, mas nascia ali, entre emboladores e repentistas, zabumbeiros e triangueiros, sanfoneiros e coquistas, um dos maiores fenômenos musicais brasileiros, dono de um estilo inigualável em interpretar e compor xotes, rojões, frevos, baiões, marchas, choros, cavalos-marinhos, maracatus, sambas, macumbas e tudo o mais que possa ser catalogado como música genuinamente brasileira, exceto o samba-canção. Porque não era coco. O resto é.

— Música que tem balanço no Brasil, faço toda ela. E o coco é o pai do negócio

O moleque Zé, que um dia aproveitara a ausência do zabumbeiro preferido da mãe para exibir seus dotes musicais, não sabia, mas sentia isso na pele e no sangue.

O adolescente e rebatizado Zé Jack, padeiro e cabarezeiro em Campina Grande, desconfiava disso e rompia com os grilhões da pobreza na busca de uma confirmação.

Coube ao gigante Jackson do Pandeiro sentenciar isso até a morte. Negro, pobre, semi-analfabeto, comeu a raiz que a fome amassou e conquistou, altivo em sua simplicidade, um trono próprio numa das estrelas da constelação musical brasileira.

Rei no país dos ritmos, legou, para um séqüito eterno, uma luminosa e inigualável coroa de sons de ouro.

Uma coroa de couro. Ou de coco.

Flor de Jardineira

“Cantando meu forró vem na lembrança
O meu tempo de criança, que me faz chorar
Ó linda flor, linda morena
Campina Grande, minha Borborema”

Alagoa Grande ficou pequena para Jackson. Já rapazote, dividia-se entre a roça e as rodas de coco, agora como acompanhante oficial da mãe. Tempos difíceis. Privações e enfermidades plainavam sobre a família, formada por um casal e três filhos.

Uma mãe e três filhos. A morte do pai impulsiona a vontade do menino traquino, determinado a buscar espaços maiores para arrefecer sua fome fisiológica e sua sede de vida.

E cidade grande não era Alagoa, era Campina. Centro econômico no apogeu do ciclo do açúcar, algodão e agave, a Rainha da Borborema, nos anos 30/40, atraía as atenções do Nordeste para sua neo-economia agrícola — robusta e aparentemente inquebrantável —, um comércio cosmopolita e lúdicos costumes provincianos, arraigados e expandidos por feiras, praças, cafés, cassinos e cabarés, habitados por poetas e vigaristas, trabalhadores e repentistas, prostitutas e banqueiros, jogadores e retirantes, vaqueiros e cambistas. Campina Grande, a micrometrópole, seria, assim, a cidade adotiva de Jackson e sua família. A meca dos violeiros e cantadores. A cidade dos sonhos do menino de índole rural e pele urbana.

Da cidade natal, o garoto de 11 anos guardaria na memória apenas as caçadas, os banhos e pescarias nos açudes e lagoas encravados entre as serras da região, com os irmãos Tinda e Severina – Cícero, o caçula, nasceria em Campina. Já as privações, preferia esquecer. Como esqueceu.

Todo nordestino é parente de outro. Longe ou perto, sempre haverá um rosto amigo e uma mão solidária, pronta a dividir o indivisível entre os que somam dissabores.

Jackson, mãe e irmãos iriam depender, ao chegarem a Campina, do grau de solidariedade de parentes e amigos. Tiveram esse apoio, mas quase passam fome. A pescaria diária e gratuita no Açude Velho atenuou isso.

O primeiro emprego, arranjado por um tio, numa padaria, não duraria o tempo suficiente para carimbá-lo com o rótulo de aprendiz de padeiro. Ou melhor, de bolacheiro.

Cortar massas de bolachas ao ritmo de marchinhas carnavalescas não o ajudaram a consolidar-se na profissão. Não era exatamente aquilo que Jackson desejara como futuro. Nem como presente.

As disparidades entre um tabuleiro de pães quentes, distribuídos numa fria madrugada de um domingo de Carnaval, ao som de A Jardineira, levam-lhe, aos 18 anos, a uma inabalável promessa aos deuses da musicalidade: padaria, nunca mais. A partir dali seria músico. O melhor, se possível.

“Vem jardineira, vem meu amor…”

“Bodocongó, Alto Branco, Zé Pinheiro
Aprendi a tocar pandeiro nos forrós de lá”

Clube Ypiranga, Cassino Eldorado, cabarés e picadeiros. Determinado a aperfeiçoar-se no novo ofício e a sustentar toda a família — inevitável, com a aposentadoria da mãe —, o magricela e vaidoso mancebo circula por todos os bares, becos e buracos que o aceitem, mesmo menor de idade, para tocar tamborim, gaita-de-boca ou bateria. Fazer samba, enfim.

Batidas da polícia, humilhações e figuração. Ainda não era isso que queria. A cada quilômetro rodado como baterista, sentia distanciar-se o sonho do “melhor”. Pela terceira vez, antes dos 21 anos, traça seu próprio destino:

— Meu sentido era tocar pandeiro. Não gostava de bateria porque, na época, tinha uma música, o fox, que eu não gostava, não me dava bem tocando aquilo. Então, fui tocar pandeiro. Mas, também, só queria tocar pandeiro se tocasse melhor que os outros ou igual ao primeirão. Se tocasse como um pandeirista de quinta classe, não tinha continuado.

E o futuro rei conquista seu cetro.

?????

Um promissor monarca de nome Zé? Zé de baixo ou Zé de riba? Desconjuro! Como havia Zé naquela corte chamada Paraíba.

Que título seria mais adequado a um príncipe regente musical? Zé, certamente, não asseguraria acesso à nobreza. Já Jack, talvez. Os amigos de farra e a semelhança de Zé Gomes Filho com o ator de faroeste norte-americano, Jack Perrin, viriam resolver o problema inconsciente do ardoroso fã sul-americano. E traria outro, bem maior:

— Mas é possível? Eu batizar o menino com o nome de José e eles trocarem o nome pra Jack?

— É brincadeira, mãe!

— Que brincadeira o quê, diabo!

Jack, Zé Jack, Zé Jack do Pandeiro… Pronto, estava apelidado. Se bem que o renomeado tentou desfazer a “brincadeira”. Levou e deu uns sopapos por isso. Pela mãe. Mas não reverteu o rótulo, fazer o quê? O jeito, agora, seria arranjar uma coroa que se ajustasse a essa nova realidade — que viria do forrozeiro Manezinho Araújo.

O chapeuzinho de palha, usado de banda, selaria a marca estética de um dos primeiros show-men da futura era televisiva. Sua alteza preparava-se, sem saber, para um reinado absoluto.

Seus domínios ampliavam-se. Do bairro de Zé Pinheiro, que o conhecera como goleiro e palhaço , parte para os clubes e cabarés da cidade. Integrantes da Jazz Tabajara, da emissora homônima pessoense, descobrem o medonho pandeirista e o convidam para seu primeiro encontro com o rádio.

O menino que chegara Zé, sai de Campina Grande carregando dois pandeiros: um nas mãos e outro no nome. Para sempre.

Um Paraibucano

Vontade de mostrar seu talento através do rádio, bem que ele tinha. Não teve foi certeza que o convite era pra valer. Mesmo assim, parte para João Pessoa, a ansiada capital, e vai logo sendo contratado, por Cr$ 100,00 — “uma fortuna”, aos seus olhos. Aos 23 anos, iria fazer, com paga certa, o que mais gostava e sabia realizar na vida: tocar pandeiro. Num cabaré, pra começar. O de Isabel Galega, nas imediações da estação rodoviária. Lá ele teria grana, mesa, banho e cama. Estaria bom assim. Alcançar notoriedade talvez não fosse tão simples.

Foi preciso o maestro Nozinho, então regente da orquestra Jazz Tabajara, reconhecer o pandeirista em uma noitada de boemia e reafirmar o convite.

Faz um estágio completo na emissora. Toca com os melhores músicos da região e chega a formar, com seu grande amigo e parceiro, Rosil Cavalcanti, a dupla Café com Leite. Um preto e um branco levando música e humor aos ouvintes da PRI-4. Seu primeiro gostinho de sucesso.

Traz a família e fica seis anos em João Pessoa. Perde a mãe e segue para Recife, a convite de outra rádio, a Jornal do Comércio. Faz o caminho inverso da pernambucana Flora. Vai de encontro às raízes que inspiraram a velha coquista e que, agora, lhe caberiam como herança. Um tesouro digno de um rei.

O pandeirista prometia. O nome, não. Jack não soava bem — pensava Ernani Sévi, o diretor de programação. Carimba-lhe um “son” ao apelido e nasce Jackson do Pandeiro. De Recife para o Brasil. Para o mundo.

Sentindo-se em casa, o já popularíssimo Jackson instala-se com a família na Veneza Brasileira, forma dupla com a rádio-atriz Almira Castilho e grava, em 1953, seus primeiros sucessos: Forró em Limoeiro (Edgar Ferreira) e Sebastiana (Rosil Cavalcanti). Vira estrela. Com brilho próprio, pulsante, avassalador. Era o auge. Era o início.

A Cidade Maravilhosa confirmaria isso.

Chiclete com Copacabana

A voz chega ao Rio de Janeiro primeiro que o dono. Genival Macedo, representante da Copacabana Discos em Recife, indica o nome de Jackson para a gravadora como “bola da vez”. Luiz Gonzaga, da rival CBS, reforça a impressão. Mas ninguém conseguia convencê-lo a ir ao Rio. Temia a metrópole e o avião que o levaria. Grava, mas não vai.

Aquela interpretação irrequieta, intrigante, inovadora, chama a atenção das rádios e do público carioca. Quem era esse tal de Jackson do Pandeiro? Seria louro, alto, teria trufa? As especulações cresciam na mesma proporção que a vendagem. Uma avalanche. Ainda em Recife, recebe um “dinheiro lascado” de direitos autorais pelo estouro de Sebastiana e Forró em Limoeiro. Irredutível quanto à viagem, os Cr$ 64.800,00 de direitos autorais, recebidos sem sair de casa, ajudam os amigos na argumentação para convencer Jackson sobre a oportunidade de “sair da toca” e realizar uma temporada no sul. Cede e segue viagem com o amigo Macedo . Vai, mas vai de navio.

— Rapaz, como você é feio! — a reação inesperada e sincera do diretor artístico da Copacabana, Vitório Lattari, não arrefece os ânimos da empresa com seu novo campeão de vendas. Nem os de Jackson, por enquanto. Ao lado de Almira, estréia no programa César de Alencar, da Rádio Nacional, e não pára mais. Até cansar.

Menos de um mês depois, resolve voltar para Recife. O sucesso e a cidade grande o amedrontam. Sente saudades de casa. Os amigos advertem, aquilo era besteira. O importante era a oportunidade rara de firmar-se no cenário musical nacional. Quando chegasse ao Nordeste, arrependido, sentiria saudades da fama, das mulheres, do mar de Copacabana. O Rio de Janeiro não lhe sairia do pensamento .

— Não deu outra. Tive uma saudade danada e só pensava em voltar. Além disso, também não tinha sossego por lá, pois minhas músicas não paravam de tocar. Nessa ocasião, fui a um dancing onde havia uma vitrola caça-níquel. O dono, um estrangeiro, tocou tanto “Sebastiana” que o disco furou .

O futuro autor de “Filomena e Fedegoso” rescinde o contrato com a Rádio Jornal do Comércio e retorna ao Rio. Fica até a morte, com jeito de quem havia nascido lá.

“Nasci com a sina de cigarra, aonde eu chegar, tem farra. Hei, hei, hei, eu nasci pra cantar e cantarei/ Vive o pedreiro do prumo, a abelha do sumo, o pescador do anzol/O campeão da taça, o camelô da praça e eu canto forró/ Hei, hei, hei, nasci pra cantar eu cantarei”

De “cabeça feita” e sem jogar conversa fora, foi ficando e adaptando-se à linguagem e costumes da malandragem carioca. Aspectos latentes, crus, lapidados nas rádios e no morro; em sofisticados palcos de hotéis de luxo e no chão batido de forrós de subúrbio. A televisão e o cinema jogam sua imagem para todo o país e transforma-se, ao lado de Luiz Gonzaga, no principal representante nordestino da música popular da época.

Gonzagão cantando o rural e Jackson enveredando pelo urbano. Completando-se.

Incansável, Jackson chegou a gravar até seis discos por ano, entre as décadas de 1950 e 60. Mergulha em todos os ritmos com cara de Brasil. Imbuído de uma consciência intuitiva, preocupou-se em varrer de sua frente tudo o que vinha de fora e que não contava com elementos melódicos e acústicos brasileiros. Meio antropofágico, admitia até beber em fontes externas, desde que formatadas à realidade rítmica local. Mais ou menos na mesma linha de Mário de Andrade que pedira, bem antes, uma cultura essencialmente nacional.

Com o conjunto Os Borboremas (Cícero, Tinda, Vicente e Raimundinho) , criado em 58, gravou e lançou dezenas de compositores e intérpretes de todo o país, formando, com alguns, antológicas parcerias: Rosil Cavalcanti (“Compadre João”, “Moxotó”, “Na Base da Chinela”), Edgar Ferreira (“Ele Disse”, “17 na Corrente”, “Cremilda”), Ruy de Morais e Silva (“Casaca de Couro”), Zé Catraca (“Tem Mulher, Tô Lá”), Durval Vieira (“Tem pouca diferença”), Gervásio Horta (“Samambaia Trepadeira”), Genival Macedo (“A Mulher do Aníbal), Nivaldo da Silva (“Lamento do Cego”), Antônio Barros (“Procurando Tu”), Manezinho Araújo e Catulo de Paula (“Como Tem Zé na Paraíba”), Elias Soares (“A Mulher que Virou Homem”), Maruim (“Nem o Banco do Brasil”), Sebastião Silva (“É Bola de Pé em Pé”), Buco do Pandeiro (“Cantiga do Sapo”), Odilon Vargas (“Penerou Gavião”), Valdemar Lima e Warner Chappell (“Competente Demais”), Gordurinha e Almira Castilho (“Chiclete Com Banana”, “Meu Enxoval”), entre as mais de duas centenas de compositores presentes à obra de Jackson do Pandeiro.

Ganha fama, consolida o reinado e perde sua rainha em 1967. Com a separação de Almira, perde a mulher, a companheira, a professora e a empresária. No mesmo ano casa-se com a baiana Neuza Flores , que incorpora-se às apresentações do grupo e lhe suaviza os momentos amargos que apenas se iniciavam. A pequenina pega o osso, do que já fora filé. Transpira com ele até o último suspiro.

A febre da Jovem Guarda, do twist e do chá-chá-chá espanam para o ostracismo um dos mais criativos intérpretes da música popular, em todos os tempos. Seu inferno astral agrava-se com a fratura de ambos os braços, por conta de um acidente automobilístico. Todo seu “rosário de sucessos” nada lhe valeu na hora em que precisou catar moedas dentro de casa para pegar o ônibus de Olaria para o centro do Rio, à caça de algum contrato.

— Todo mundo diz que sou sensacional, maravilhoso, autêntico, mas eu continuo quebrando a cabeça pra arranjar trabalho. Que diabo é isso? Vai ver que o tal do iê-iê-iê derrubou minha arte. E eu sou Brasil!

Já que sou brasileiro

“Só boto bip-pop no meu samba quando o Tio Sam tocar um pandorim/Quando ele pegar no pandeiro e no zabumba, quando ele aprender que o samba não é rumba/Aí eu vou misturar Miami com Copacabana/ Chiclete eu misturo com banana, e o meu samba vai ficar assim…”

Ironicamente, os baianos e o tropicalismo, ao invés de empurrar Jackson para o esquecimento total, íça-o com estardalhaço do semi-anonimato e o paraibano passa a ser relembrado para shows e apresentações em rádios e tevês. O sucesso volta à sua porta. Ameno, mas muito mais consistente.

Com as regravações de “Sebastiana”, em 1969, por Gal Costa, e “Chiclete Com Banana”, por Gilberto Gil, em 1972, Jackson do Pandeiro volta a ser visto como fonte inesgotável de ritmos autenticamente brasileiros. Para uma geração espremida entre a sofisticação bossa-novista e a enxurrada de sons estrangeiros, a volta da música nordestina, antes considerada “quadrada” e “banal”, delimita um dos ciclos da MPB contemporânea e marca, definitivamente, a face da arte musical do país. Com Jackson como um dos responsáveis.

Até 1982, quando morreu de embolia pulmonar, depois de realizar um show em Brasília, Jackson sobreviveu apenas de sua arte, recusando-se a enveredar pelos tortuosos e nem sempre éticos caminhos da promoção radiofônica.

— Me recuso a pagar para tocar minhas músicas. Quem quiser, que toque. Eu sou Jackson do Pandeiro .

Não acumulou riquezas, não capitulou aos acenos do exterior, mas deixou um legado imensurável, perpetuado por gente como Gilberto Gil, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, João Bosco, Bezerra da Silva, Elis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso, Lenine, Zé Ramalho, Biliu de Campina, Bráulio Tavares, Xangai e a novíssima geração, formada por uma meninada atenta ao que é seu por herança genética e legado cultural. Centenas de súditos de uma majestade inquestionável. Seguidores de Jackson, primeiro e único.

— Ele era o rei do ritmo. Eu acho isso, João Gilberto, todo mundo… — sintetiza seu mais fiel pupilo, Gilberto Gil .

Jackson, por Jackson

“Eu sempre quis mesmo ter nascido na Paraíba, porque se não tivesse nascido lá, talvez as forças divinas não tivessem me dado o dom que me deram. O dom de tocar esse pandeiro que me trouxe até cá”

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“Nunca fugi das minhas origens. Já me chamaram para gravar ritmo estrangeiro, mas eu não fui”

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“A nova geração talvez não saiba, mas eu já fiz um rosário de sucessos”

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“Gravar sem ter onde tocar, não dá prazer”

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“Fiz sucesso mas não ganhei dinheiro. Para isso é preciso ser bom comerciante. E eu não sou”

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“Nos bailes canto dez sambas, ataco de forró, entro com carnaval e fecho com frevo. A turma gosta porque eu não converso. Gosto é de arriar a meia e mandar chutar na canela pura”

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“Enquanto puder cantar, me mexer e a garganta der, eu canto”

Depoimentos

Adelzon Alves, produtor cultural.
“Hoje, a música brasileira tem três reis: Roberto Carlos, Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. Hoje, ele vem sendo descoberto pelo meio artístico.Você vê o Gilberto Gil dar uma entrevista e falar sobre Jackson, vê o Caetano Veloso falar sobre Jackson, o Milton Nascimento, o Fagner, o João Bosco… No fundo, eles estão descobrindo o rei do ritmo brasileiro”.

Albino Pinheiro, produtor cultural.
“Toda essa geração que vinha do norte – Alceu Valença, Geraldo Azevedo, o pessoal do Ceará – tinha ele como um ídolo. A própria Carmélia Alves tinha uma admiração por ele que era incrível”.

Alceu Valença, cantor e compositor.
“A diferença que eu sinto dele e do Luiz Gonzaga, é que ele é mais malandro. Ele chega perto do samba, do morro. Foi com Jackson do Pandeiro que aprendi a dividir melhor, a cantar com mais ritmo, a valorizar as palavras. Foi Jackson que me despertou mais isso. Depois de Jackson eu comecei a cantar forró. É muito difícil cantar música de Jackson, porque eu acho que ele já fez tudo que poderia ser feito em música”.

Dominguinhos, sanfoneiro e compositor
“Jackson foi um fenômeno de voz e ritmo da música nordestina. Nunca vi uma pessoa com tanta versatilidade para cantar samba, forró, coco. No início ele cantava coco e rojão, depois ele passou pra forró, porque o forró tomou até mesmo o nome do baião. Foi uma coisa boa eu ter conhecido Jackson, porque ele era realmente um sanfoneiro de boca. Ele fazia introduções boas, bonitas e difíceis para sanfoneiro. Ele era um grande ritmista, grande pandeirista. Tocava todo instrumento de percussão. Jackson era uma pessoa que adorava modificar, fazer mudanças. Gostava de orquestrar. Jackson não adotava aquele negócio quadrado, não. Jackson do Pandeiro era atualizadíssimo”.

Geraldo Azevedo, cantor e compositor
“Em termos musicais, Jackson do Pandeiro pra mim foi muito importante, na minha infância e adolescência, quando estava começando a tocar violão e conhecer a música. O forró de Jackson era uma coisa bem diferente da forma de usar o ritmo, além de ser importante também na parte do cinema, quando ele apareceu em filmes da Atlântida. Depois, para mim foi a felicidade ter a aproximação com Jackson”.

José Nêumanne Pinto, jornalista do Estado de São Paulo
“Poucos cantores no mundo inteiro têm seu fabuloso senso rítmico, característica marcante do mulato magrinho que, com seu chapéu de abas curtas e o bigodinho fino, foi, durante os 62 anos de vida, a própria expressão da alegria do povo simples de seu Nordeste natal”.

Severo, sanfoneiro e ex-integrante d’Os Borboremas.
“Ele era um artista que não gostava de dar muita importância a dinheiro. Ele sempre dizia que o sonho dele era tocar sanfona, mas quando era pequeno não tinha como comprar uma sanfona, nem ele, nem a mãe dele, tinha condições financeiras para comprar. Por isso partiu para tocar pandeiro e cantar forró”.

Marcos Suzano, pandeirista
“Jackson do Pandeiro possuía uma concepção bacana, com umas quebradas modernas. Ao mesmo tempo, usava uns pandeiros de nylon, baratos, mas tocava feito um demônio. Na minha opinião, deve ter sido o maior pandeirista brasileiro de todos os tempos” .

Aldir Blanc, compositor
“Se algum músico pode ser chamado de seminal no Brasil é Jackson do Pandeiro. Ele foi o ponto de partida e uma referência para muitos músicos que estão hoje aí. Os meus dois parceiros, Guinga e João Bosco, são um exemplo disso. Eles foram influenciados diretamente pelo trabalho de Jackson, que, além de ótimo músico, era um extraordinário letrista. Aliás, estou escrevendo a letra para uma música que o Guinga me mandou em homenagem a ele. Vai chamar-se Influência de Jackson”.

Chico César, cantor e compositor
“Ele está, para mim, no Olimpo da música brasileira. Reinventou o samba e o coco. Eu, João Bosco e Lenine somos herdeiros dele. O Jackson era um cara que tinha um jeito superbrasileiro e autêntico de cantar”.

Elba Ramalho, cantora
“Na minha opinião existem duas escolas de canto no Brasil: a de João Gilberto e a de Jackson do Pandeiro. Eu tive o privilégio de conviver com Jackson e ser amiga dele. Foi o meu grande professor ao lado de Gonzagão. Os dois sempre gostaram muito do meu trabalho. O Jackson tocou em quase todos os meus primeiros discos”.

Guinga, cantor
“É impossível um compositor que ame a música brasileira não ter o trabalho de Jackson como referência. Eu tenho uma relação muito forte com a música dele. Lembro-me de que quando era criança ia passar férias numa pequena casa de pescador, numa cidade do litoral do Rio. A casa não tinha luz elétrica e a diversão dos adultos era jogar baralho e a dos garotos, ouvir músicas do Jackson, que o meu pai punha para tocar numa vitrola de manivela. Depois, já profissional, encontrei-me diversas vezes com ele em estúdio. Ficava admirado olhando aquela figura humilde, simples, que não tinha muita noção de sua genialidade”.

João Bosco, cantor e compositor
“Sempre fui fascinado por ele. A gente tinha um projeto de fazer vários shows juntos pelo país, mas acabou não dando certo por causa da falta de grana. Tive a oportunidade de dizer ao Jackson o quanto admirava o seu trabalho. Gravei uma música em homenagem a ele – Batiumbalaio, Rockson do Pandeiro. Coloquei “Rockson” porque achava que o som dele tinha muito de rock and roll. O samba de Jackson já vinha com bebop. Acho que a música dele tem de ser mais divulgada, principalmente para os músicos mais jovens. Fico imaginando como ficaria maravilhoso esses grupos de rock pauleira gravando com influência do coco de Jackson”.

Moraes Moreira, cantor e compositor
“Ele encarnava toda aquela coisa da música nordestina, o ritmo, a energia e o suingue. É claro que fui influenciado pelo trabalho dele, aliás acho que todos os músicos da minha geração também foram. Era um grande cantor e um excelente tocador de pandeiro. Jackson interpretando “Chiclete Com Banana” é simplesmente maravilhoso. Outro dia cantei “Sebastiana” numa festa de São João e foi um sucesso. Pretendo gravar mais músicas de Jackson nos meus próximos discos”.

Tom Zé, cantor e compositor
“O meu último disco foi dedicado ao Jackson do Pandeiro. No Nordeste, os três principais alimentos são a farinha, a carne-seca e o ritmo, que é um verdadeiro Deus – e Jackson, o nosso sacerdote. Temos hoje essa malandragem rítmica porque ouvimos muito Jackson quando éramos crianças. Outro dia, fiz uma música para um artista de São Paulo e ele não conseguia cantar direito. Não sabia dividir o canto como a gente. Faltou a ele a escola de Jackson do Pandeiro”.

Zé Ramalho, cantor e compositor
“Fui muito influenciado por Jackson. Tinha uma grande voz, era uma espécie de João Gilberto do forró. Fiz um show ao lado dele em 1976, no Teatro João Caetano, no Rio, e fiquei impressionado com o ritmo e a energia dele em cima do palco. O sobrinho dele, o José Gomes, que herdou o nome do tio, toca pandeiro na minha banda há muito tempo”.

Tárik de Sousa, pesquisador e crítico musical
“Jackson do Pandeiro, o rei do ritmo (a biografia)recapitula a trajetória do menino pobre e analfabeto, filho da cantora de coco Flora Mourão, que emerge da miséria quase absoluta no começo da vida para um posto no topo da cultura nacional”.

Lenine, cantor e compositor
Em artigo publicado em O Globo, de 3 de maio de 1998, o compositor pernambucano lança uma inspirada alegoria para a música de Jackson: “manhãs de domingo”. O texto foi inserido em matéria de duas páginas no Segundo Caderno, a pretexto de anunciar a indicação de Jackson do Pandeiro para o Prêmio Sharp, destacar as regravações em andamento e informar sobre o lançamento de sua primeira biografia::

“Jackson do Pandeiro, para mim, tem a cara do domingo. Explico: meu pai, para minha felicidade, sempre teve o maravilhoso vício de ouvir música nas manhãs de domingo. Eram manhãs repletas de sons. Lembro de canções italianas. Lembro de modinhas portuguesas. Lembro da descoberta da música popular russa, Glenn Miller, os clássicos, e muita, muita música popular brasileira. Lembro que, com 5 ou 6 anos, sentados em frente do nosso “ABC, A voz de ouro”, eu e meus irmãos viajávamos pela cultura planetária daquela época. Mas, essas lembranças, durante muito tempo, ficaram esquecidas em algum esconderijo neural, como num arquivo oculto, sem acesso.

Minha memória funciona de uma maneira completamente randônica. E foi a senha “Jackson do Pandeiro” que permitiu acessar e reviver todos esses momentos. Quando, na faculdade, caiu nas minhas mãos o vinil “Os Grandes Sucessos de JP”, foi uma revelação. E na audição da primeira canção, (“Morena Bela”) tudo se cristalizou. Lembrei da cara feliz de meu pai, do riso frouxo e prazeroso, quando o coco de Jackson tocava. Lembrei da tremenda festa que causava. Lembrei do rela-bucho libidinoso, do bate-coxa papai/mamãe, da sacanagem sadia que eles dois comungavam ao som do coco de Jackson. Lembrei do humor, da crônica, do suingue irreverente daquele pandeiro. Foi o passaporte para o meu passado.

O maior percussionista de boca que o mundo já produziu fez o link do coco com o samba. Fez a ponte entre o Nordeste e o Rio. “Tudo é coco”, dizia Jackson. Para nós, tudo é Jackson. E priu.


1 comentário para esta notícia

  1. Luiz Antonio de Almeida Diz:
    31 ago 09

    Assim encaminha essa humanidade que relembra para nós essas enciclopédia, que está ficando cada vez mais esquecida nos tempos do agora, Jackson do Pandeiro, inclusive Zé Ramalho faz uma homenagem cantando ele, essas coisas só vai ficando assim como diz o nosso poeta e Cigano Benito de Paula.. Você vai ficar na saudade minha senhora, ah! Eu vou embora…

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